Enedina Alves Marques (1913–1981) entrou para a história como uma das maiores pioneiras da engenharia brasileira. Nascida em Curitiba, no dia 8 de janeiro de 1913, ela foi a primeira mulher a se formar em engenharia no Paraná e, sobretudo, a primeira engenheira negra do Brasil, um feito que ganha ainda mais relevância quando inserido no contexto social e histórico da primeira metade do século XX.

Filha de Paulo Marques, lavrador, e Virgília Alves Marques, empregada doméstica e lavadeira, conhecida como Dona Duca, Enedina cresceu em uma realidade marcada por dificuldades financeiras e limitações impostas pelo racismo e pelo machismo estrutural da época. Ainda assim, desde cedo, a educação foi o caminho que lhe permitiu sonhar e resistir.
Na década de 1920, a mãe passou a trabalhar para a família do delegado e major Domingos Nascimento Sobrinho, que possibilitou que Enedina tivesse acesso ao ensino formal em colégios particulares, acompanhando a filha do casal, Isabel, conhecida como Bebeca. Foi nesse período que Enedina foi alfabetizada e iniciou sua trajetória acadêmica, frequentando a Escola Particular da Professora Luiza Dorfmund e, posteriormente, a Escola Normal.
Formada professora, atuou no interior do Paraná entre 1932 e 1935, lecionando em cidades como Rio Negro, São Mateus do Sul, Cerro Azul e Campo Largo. Mesmo já inserida no magistério, Enedina não abandonou o desejo de ir além. De volta a Curitiba, conciliou trabalho, estudos e tarefas domésticas para seguir se qualificando — realidade comum às mulheres negras da época, mas raramente registrada pela história.
Em 1938, ingressou no curso complementar de pré-Engenharia no então Ginásio Paranaense, frequentando aulas no período noturno. Sete anos depois, aos 32 anos, formou-se em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia do Paraná, atual Universidade Federal do Paraná (UFPR), quebrando barreiras que até então pareciam intransponíveis.
A conquista do diploma não foi apenas individual: representou um marco simbólico para mulheres e pessoas negras em um espaço historicamente reservado a homens brancos. Enedina precisou enfrentar preconceitos explícitos e silenciosos, mas sua competência técnica e determinação falaram mais alto.
Ao longo de sua trajetória profissional, colaborou em importantes obras de infraestrutura no Paraná. Entre elas, destaca-se a participação na construção da Usina Capivari-Cachoeira, atualmente denominada Usina Governador Pedro Viriato Parigot de Souza, em Antonina, a maior central hidrelétrica subterrânea do Sul do Brasil. Sua atuação contribuiu diretamente para o desenvolvimento energético e econômico do estado.
Décadas após sua morte, Enedina Alves Marques segue sendo referência e inspiração. Sua história tem sido resgatada em livros, pesquisas acadêmicas e homenagens públicas, como o doodle do Google que celebrou seus 110 anos de nascimento. Para estudiosos e educadores, seu legado simboliza a resistência, a inteligência e a força de uma mulher que ousou ocupar espaços negados a ela.
Mais do que a primeira engenheira negra do Brasil, Enedina foi uma mulher à frente de seu tempo, foi alguém que transformou adversidade em potência e abriu caminhos para que outras pudessem sonhar, estudar e construir o futuro.
Seu nome permanece como lembrança viva de que a história também é feita por mulheres negras que desafiaram o impossível e deixaram marcas profundas na sociedade brasileira.






