Foz do Iguaçu se transformou no principal epicentro do contrabando de canetas emagrecedoras ilegais no Brasil. A cidade localizada na fronteira entre Brasil e Paraguai concentra uma das principais rotas de entrada clandestina desses medicamentos no País, impulsionada pela extensa faixa de fronteira e pelas pontes internacionais que conectam os dois países.
O avanço das canetas emagrecedoras ilegais acontece em meio ao crescimento da procura por medicamentos voltados ao emagrecimento rápido, especialmente produtos à base de tirzepatida e semaglutida, substâncias associadas a remédios usados no tratamento da obesidade e diabetes.
Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), apenas cinco medicamentos possuem autorização oficial para comercialização no Brasil: Mounjaro, Turzemax, Veltrane, ZPHC e Thera Biolabs. Mesmo assim, muitos brasileiros recorrem a produtos clandestinos trazidos do Paraguai por atravessadores.
A promessa de emagrecimento acelerado vem atraindo consumidores dispostos a comprar medicamentos sem procedência e sem qualquer controle sanitário. O problema é que, em muitos casos, os produtos comercializados ilegalmente sequer possuem composição semelhante aos remédios originais.
O chef de cozinha Paulo Marin, de 50 anos, relatou ter adoecido após utilizar uma suposta caneta de tirzepatida aplicada em um consultório improvisado. Segundo ele, o procedimento acontecia sem apresentação de embalagem, lote, receita médica ou qualquer comprovação de origem do produto.
“Ele aplicava a dose e pronto. Eu não via o frasco. Ele dizia que era endocrinologista, mas nunca vi CRM”, relatou.
Após as aplicações das canetas emagrecedoras ilegais, Paulo passou a apresentar náuseas intensas, tontura, vômitos e hematomas. Mesmo diante dos sintomas, tentou uma segunda aplicação, mas o quadro piorou. Segundo ele, além dos efeitos adversos, não houve qualquer perda de peso.
O relato evidencia o crescimento perigoso do mercado clandestino das canetas emagrecedoras ilegais, impulsionado principalmente pelas redes sociais, pela cultura do emagrecimento rápido e pela popularização desses medicamentos entre influenciadores e celebridades.
Especialistas alertam para canetas emagrecedoras ilegais, substâncias perigosas e falta de esterilidade
Especialistas ouvidos por veículos de imprensa afirmam que os riscos vão muito além da ausência de eficácia. Testes laboratoriais realizados em produtos vendidos clandestinamente apontaram graves irregularidades na composição dessas canetas.
A endocrinologista Maria Fernanda Barca, doutora pela Faculdade de Medicina da USP, afirma que análises identificaram soluções com baixíssima pureza, ausência de esterilidade mínima, matérias-primas de origem desconhecida e até presença de sibutramina — substância proibida para uso injetável.
Segundo ela, muitos produtos clandestinos são produzidos em ambientes sem qualquer controle sanitário, aumentando significativamente os riscos de contaminação.
Além disso, frascos superconcentrados vendidos para múltiplos pacientes elevam o perigo de infecções e complicações médicas graves. O endocrinologista Clayton Macedo, do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto Cohen, afirma que exames independentes identificaram frascos vendidos como tirzepatida com pureza entre 7% e 14%, quando o medicamento original exige cerca de 99%.
“É outra substância. É um composto instável. Não se comporta como tirzepatida e não tem como gerar o efeito terapêutico esperado”, explicou. O crescimento das canetas emagrecedoras ilegais também intensificou ações de fiscalização nas rodovias do Paraná. Nos últimos meses, operações policiais registraram apreensões milionárias de medicamentos clandestinos escondidos em carros, ônibus e caminhões vindos da fronteira.
Especialistas alertam que o uso indiscriminado desses produtos pode provocar complicações cardiovasculares, problemas gastrointestinais, infecções e reações severas causadas pela falta de controle sanitário. Outro fator preocupante é a atuação de falsos profissionais da saúde e clínicas improvisadas que oferecem aplicações sem acompanhamento médico adequado.
O fenômeno das canetas emagrecedoras ilegais reflete uma combinação perigosa entre pressão estética, promessas de emagrecimento rápido e crescimento do mercado clandestino de medicamentos no Brasil. Enquanto autoridades reforçam fiscalizações e alertas sanitários, especialistas defendem maior conscientização da população sobre os riscos do uso de substâncias sem procedência e sem acompanhamento médico regular.






